sábado, 20 de junho de 2009

Margareth BBC London




Manhã quente
Interior do Paraná, terra vermelha
O asfalto com fumaçinha me faz pensar, como pode isso ?
Sigo o caminho, está quase na hora do colégio
Sempre distraído com o caminho

Na próxima quadra, a igreja esplendorosa
De um tamanho desproporcional a mim
Praça com suas árvores verdes, sombras para descansar

Sempre havia uma parada, não para reflexão
E sim para esperar ali e não no colégio o horário de entrar
Uniforme das irmãs francesas todo arrumadinho, como mamãe sempre fazia
Meus outros irmãos e irmã, em algazarra já estavam no portão a me aguardar

O que me traz a lembrança, nem tanto o colégio, os professores ou o local
Era a tarde, logo após o almoço
O quintal que havia em casa era mágico
Árvores que davam frutos , saciavam a fome e as fantasias

Construí o primeiro castelo no abacateiro, muito alto
O chão de pedaços de madeiras que não tinham uso mais
O teto uma mistura de vegetação e tecidos coloridos
Prateleira de caixas de sapato
A janela a visão que eu queria, ninguém se aproximava sem ser observado
A porta era um papelão, de caixa de televisão da marca philips

Minha mãe, não se importava com meus retiros diários
Sempre tinha algum lanche para levar
Recordo-me da pasta da escola, com o lanche, e minha coleção de selos
Rapidamente e confortavelmente estava instalado
Os sons dos pássaros a bicar os abacates
Eram minhas companhias

Dentro de uma lata, que ali permanecia , estava meu tesouro
Alguns soldadinhos de chumbo, caixas de fósforos
Meu exército conquistador
Sentia-me "Alexandre O Grande", todas batalhas vencia

Os sons que reproduzia, explosões, bater de pés, gritos de medo
Dialogo entre inimigos e o final empolgante
O desfile do vencedor
Alexandre era o seu nome, soldado de chumbo
Pés vermelhos pintados com esmalte da minha irmã

Cansado da brincadeira, meus estudos fazia
Sempre querendo ser o melhor
Hoje ainda penso, pra que?
Eram horas de estudo, sempre levando a sério tudo
E no anoitecer, a hora mágica, eu com minhas invenções
A iluminação fazia
Cheio de fios, espalhados, com pequenas lâmpadas alimentadas por pilha
Meu Castelo aparecia

E nessa hora ligava meu rádio escutar a BBC de Londres
Uma antena que ia de uma árvore a outra
Nada entendia
Na escola só aprendíamos o francês
A imaginação traduzia

Aguardava ansiosamente
A voz de Margareth a radialista
A cada palavra, entonação, eu me prendia
E no Castelo ela permanecia
Até ouvi-la dizer
"good night listeners BBC London"