quarta-feira, 17 de junho de 2009

A sala




O som do piano ao fundo suave
Risos por toda a sala
Poucos escutam, o compasso tão leve , expressa uma canção linda

Do outro lado, duas damas, vestido branco
Contra a janela, a luz reflete os fios doirados dos seus cabelos
Cena , paradisíaca, como se o tempo parasse nos sorrisos de ambas

A senhora sentada logo ao lado, em uma poltrona escura e pesada como o tempo que passou
Semblante sério, como se o barulho a incomodasse, mas não podia deixar de estar ali
Sua presença imponente era constante nas festas

Crianças a correr pela sala
Gritos a ecoar, choro de quem não pode acompanhar
Meninos vestidos de homens e meninas de mulheres
Como se isso os impedisse de ser crianças

O sóbrio mordomo à porta
Como se estátua fosse
Não havia demonstração de vida
O semblante não se altera a nenhuma provocação ou brincadeira
Vestia terno preto que combina com seu comportamento
Servil há gerações

Espelho de cristal, próximo à sala de jantar
Reflete a imagem da pianista
Como pintura de Rebrant

A mesa posta , com cristais da Baviera, louças russas
Cadeiras portentosas
Vinhos franceses
Um verdadeiro banquete à acontecer

Convidados chegando , alegria ruidosa
Conversas e risos soltos
Cavalheiros e damas separados como se o protocolo assim exigisse
E vinho a regar este regimento de portentosos senhores
A maioria a gabar-se do seu patrimônio acumulado sabe Deus como

Entre tantos, Marcia , com seus 18 anos , ainda não se acostumara com as festas
Seu vestido rosa , bordado à mão pelas damas de companhia
Conversa com as amigas
Olhares à sua direção
A juventude não percebe que é cortejada
Faces rosadas, pelo calor da noite quente de verão
A deixam mais agradável aos olhos

Dono do olhar, vagueia pela sala, achando o melhor ângulo
Sonhos que não serão reconhecidos
Seu traje branco, destaca dos demais
Como se assim quisesse chamar atenção
Expressão da solidão
Vivendo ao lado de um lago, sua mansão, quase sem vida
Que um dia alegre fora

Sem sinais de tristeza ou arrependimentos
Veste suas dores com confortável prazer
Como se assim pudesse provar a si mesmo convicções

Olhar de novo se perde
O impossível envolve, fascina
E assim foi toda sua vida
Hoje restrita a um olhar
Não correspondido