domingo, 28 de março de 2010

Passado

 

Talvez eu precise me sentir um sapato velho

Confortável, seguro, mas velho

Lembranças , passado que não me recordo

Teria que carregar o peso do passado, mas, sinceramente não sei  onde deixei

Em algum canto no caminho lá ficou

Não devia eu sei, não foi intencional, foram várias paradas, e delas nada levei

 

Culpar-me por me proteger, nada levando, não tenho recordações

Só a opção do recomeçar ou a estupidez do dia a dia

Fórmula inválida, as dores das partes perdidas no caminho, existem

Só que mais sutis, sem a força de um vendaval

É uma brisa, quente, acolhedora, que posso me proteger atrás de qualquer objeto

Nada tenho , posses que se materializam e ainda assim, não as visualizo

É um vai e vem de coisas , que nada representam, ficam na estrada como meu passado

 

Estou pronto e sempre estarei, no sentido de nada ter, e quem sabe nada sofrer

Engano ? talvez !

Explicar essa minha metamorfose inconcebível é quase impossível

A teia que crio em relacionamentos é expressiva, e ao mesmo tempo, não pertenço

Sou a sobra por opção, e crio situações

 

Talvez Freud, explique , o que poderia me confortar ao estar enquadrado

Dentro de regras

A lógica no viver é delicada, no sentido que pessoas são seres maravilhosos que vivem

Optam , decidem, assim a lógica vai por terra

Mas, eu , contrário sou

 

E o que isso melhora ou piora os demais

Em nada, apenas preservo que estes que vivem, não venham a sentir ruptura

De estar ou não estar, já não faria diferença

A distancia da aproximação é relativa

“Estar ao lado não necessariamente é estar próximo, na lógica humana”

 

Chego a rir, do texto, explicar algo que é tão claro e límpido

Disfarçar o óbvio

Palavras difíceis à expor a simplicidade

 

Tenho certeza e lerei muitas vezes o texto, como sempre faço

Criarei finais e conclusões a cada vez

sexta-feira, 26 de março de 2010

A natureza desconhecida

Cada dia escrevo mais para esse Ser andante que sou eu
Impulsivo por natureza
Estou tentando me recordar em quantas oportunidades tive que me silenciar
Raras vezes , uma ou duas nesta vida
Provavelmente tal fato tem dois sentidos
O primeiro que sendo tão raro o meu silenciar , me fez cada dia mais impulsivo, senhor da razão
Por outro lado, me faz uma pessoa que tem discernimento do que está a fazer
Pode soar dúbio tal afirmação ou pretensiosa, por dar a entender que me acho o melhor
Não é o caso, apenas estou a constatar de um viver, regado de altos e baixos, e muita pouca tristeza
O meu agir na realidade é meu melhor, e isto me faz sentir melhor, mesmo não sendo
E sei, que pode me custar muito caro agir assim, ou não?
Quem sabe ?

Esperar algo de alguém?
As minhas limitações eu consigo lidar, já as limitações de outrem, realmente o que posso fazer ?
Há muito tempo aprendi a viver de acordo com minhas expectativas, mas, dirigidas à minha pessoa
Aos demais, não as tenho, aceito-os como são, e se me surpreenderem que bom …
Egocêntrico?
Talvez ou quase de certeza sou, mas, faço para merece-lo, afinal, de que adianta as opiniões alheias
Alma boa, como dizem , será que sou ?
Abandonando hipocrisias relativas ao tema, tenho minha alma tranquila,  se ela existir
Não desejo mal, enxergo o lado bom  , já o lado ruim , que todos temos, deixo a cada um se julgar;

Aprender ?
Ainda aprendendo com vivencias que obrigo-me a tatear, divirto-me com a minha falta de jeito
Se tem alguém que ainda fica rubro de vergonha ou não sabe a onde por  a mão , esse sou eu
Arrisco-me  por não ter outra opção, já não tenho tempo a filosofar

Amor ?
Lembro-me de uma cena de um cavaleiro errante, em sua armadura
O cavalo branco fogoso
Armas em punho, gritando vitória
Castelo ao fundo, fechando o quadro
Em outra cena, ele sobre a ponte levadiça
Portões fechados
Ninguém a recepciona-lo
Estranha sensação , que o cavaleiro estava a sentir
Não eras um príncipe, e sim um simples cavaleiro errante

Vida ?
Faço o possível, desde que eu queira, afinal vida é só uma
Não tem como terceirizar decisões
A sensação que define o final, é a do somatório de erros
Acertos é nossa obrigação

Em resumo:
Poderia ter sido melhor ?
Quem sabe?
Eu realmente não sei, fico com esta vida que tenho
Seja ela até o momento boa ou ruim
Afinal não tenho outra, e não cabe lamentações
Não aceito mais cobranças, inclusive as minhas
Revoltado não, cético talvez, mas , muito consciente do que eu não quero

Concluo com os versos que mais li nesta vida, de “José Régio”
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

“Cântico Negro”

.

domingo, 21 de março de 2010

O LIMITE DA PERCEPÇÃO

 

Outro dia, estava nas minhas caminhadas que sempre faço nas manhãs, não importa se está chovendo ou não, é meu compromisso com o corpo e mente.

É o momento de reflexão, nada do dia a dia, é a contemplação da mata, das pessoas, em fim de tudo e todos que estiverem no caminho.

Moro numa região montanhosa ao sul de algum lugar, a mata é rasteira com raras árvores, e com certa similaridade com as pessoas que também são raras neste lugar.

Acostumei com o jeito do povo, desconfiado e tranquilo, afável e exigente, já decorreram quase dez anos que estou a morar numa casa escolhida, pela comunidade, e também por ela reformada e mantida.

As vezes penso porque não segui meu caminho, o que me fez aqui ficar, poderia ter sido como todas as outras cidades, o andarilho sem lar  e nem regresso,  que passa e nada deixa.

Vejo que hoje é dia de recordações, lembro-me bem, a observar do alto da estrada, a cidade que ficava no vale, poucas casas e a igreja com sua única torre apontada para o céu, cores cinzas sem vida.

Era outono , a época mais triste da natureza e minha, o céu é uma mistura de tons que não se definem como no inverno, tudo é incerteza nesta estação.

Meus passos já não são mais firmes, é uma mistura de dor e cansaço , e determinação, ao aproximar da cidade há uma pequena ponte sobre o riacho, que não tem como não dizer que as águas são cristalinas,  o borbulhar da água me fez parar, o som era delicado e manso.

Explicar o limite da percepção é impossível, sensação talvez, não sei, o som das águas reverberaram em meu cérebro, olhava os raios solares a brilhar refletidos na água, e um intenso som vinha em minha direção, um som sem imagem ou motivo, o riacho ali observando-me tranquilamente, e o som a inquietar meu ser.

Olho e vejo um senhor com um chapéu enorme, passando, e lhe pergunto, está a escutar esse barulho ensurdecedor?

Olha-me com olhos bondosos e diz, “Não meu filho, não escuto nada”

Não pode ser, o som está a cada segundo maior, é como se a terra revirasse em si mesma, não sei explicar, mas ele se aproxima, o que poderá ser

Aquele senhor, que hoje sei seu nome era Thomas, um venerável na comunidade, já naquela época tinha seus oitenta e poucos anos, vi que ele estava a observar as montanhas longínquas, e ele “meu filho, ajude-me a tocar o sino da igreja, no caminho explico”.

Fomos em passos largos até a praça central , e abrimos a igreja, e ele disse, “toque três vezes, e depois duas, espere um pouco e repita, por varias vezes”. Assim fiz, sem entender o que estava a acontecer, e a comunidade veio rapidamente à igreja, e Thomas lhes dizia “É a mão das águas” e todos corriam para o interior da igreja, que tinha uma parte superior com piso em madeira, e todos foram para o alto, e Thomas dizia “filho venha suba”.

Havia silencio que todos entendiam, somente eu a não saber o que fazíamos naquele local. Senti a mão amiga de uma senhora que veio e abraçou-me, e em meus ouvidos dizia “obrigado”.

Sentimos o tremor e o ruído muito grande, eram águas passando por dentro da igreja, levando bancos e outras coisas, não podíamos observar o exterior, mas a violência com que os alicerces tremiam, dava-me idéia da força das águas.

Foram cinco minutos, e a calma novamente recaio sobre o lugar, e todos abraçavam com a felicidade em seus olhos, partilhei deste momento, abraçei tantos que acredito superior ao que havia feito em toda minha vida.

Fiquei aquela noite na casa de um amigo de Thomas, no dia seguinte, mostraram-me a casa que eu poderia ficar, e na mesma noite, explicaram que havia mais de cem anos que não ocorria tal evento, e que eu consegui com meu alarme salvar aquela centena de vidas.

Senti perplexo , quantos acontecimentos precisaram acontecer em minha vida, para estar lá sobre a ponte, naquele exato momento.

Nos faz pensar….

 

.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Lego da imaginação



Versinhos que monto e desmonto
Castelos coloridos e vazios
Pontes próximas a fontes
Ligam e desligam
Ponto sobre ponto, letras azuis, palavras sem ponto
Monto e desmonto

Versos que se encaixam
Idéias brilhantes
Planos que desmontam

Como criança brinco
Monto e desmonto o exeqüível
O imaginável não desmonto

Monto e desmonto idéias e razões
Palavras espalhadas
A escolha é minha

Monto e desmonto
Realidade já não existe
Brincadeira de imaginar

Criança a brincar
A rir sozinha das suas asneiras
Montando e desmontando
Sem consequência ….

.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Pedaços de amor

 

Eu lhe abraço

Parte de mim, sempre fica

Sabe, ainda acho inacreditável, a obra que Deus nos permite

Ter uma filha maravilhosa como você

A ocasião, aniversário !, passa despercebida

Cada molécula do meu corpo vibra

Sei que és tu

Parte indivisível

 

Às vezes meu jeito como sempre digo , sem jeito

Não demonstra como és importante

E ao me aproximar de ti, é como se uma história de vida, acontecesse toda naquele momento

Observo seus olhos verdes e já não faz diferença se és adulta, casada, és ainda a minha pequena

E sempre serás

 

O som da tua voz me traz a realidade de ‘ser’ completo

És a única, que atravessa minhas fortalezas

Não precisas de chave

Entras e invade meu coração

És minha filha, és parte de mim

 

Fico sempre o tempo necessário

Para poder partir ainda inteiro

E sei que minha presença não retorna

Está ai ao seu lado

Como parte de você

 

Te amo filha, e eu jamais poderei sentir nesta vida algo que se assemelha ao que sinto por ti

És vida, és luz, és doce , que me desfaz em pedaços de amor

Te amo filha

sábado, 6 de março de 2010

Faço e desfaço a mala

Mais uma vez a chave gira, e a porta abre
Não há novidade no ambiente
Cama feita, tudo arrumado
As toalhas no banheiro como eu gosto, devidamente dobradas
Lençois limpos e macios
Travesseiros enormes e macios

As cores pastéis combinam comigo
Silencio do ar condicionado funcionando
Ligo televisão e a deixo falar para o nada como sempre
Espio a paisagem, hoje cinzenta de  tarde de chuva
Lap Top ligado e conectado , sinto-me mais em casa
O Frigobar agua com gáz, me faz lembrar o refrigerante favorito

Com certo cuidado de quem sempre o fez
Desfaço a mala, poucas peças
Algo com sabor rotineiro
A segurança de fazer sem se preocupar
Acontece sem a percepção do que está a fazer
Ao final, cabides e roupas juntos como sempre

E neste momento de missão cumprida
Percebo que está tudo onde devia sempre estar
As coisas
Já eu, não sei

Despejado da minha vida
Hoje estou
Sem serviço de quarto
Sem recepção
Nem corredores conhecidos
Sinto falta dos sorrisos de bom dia cordiais, mesmo que por obrigação
O café da manhã sempre perfeito
Os horários que me acostumei, hoje não fazem mais sentido
Até a conta a pagar não me apresentam mais


Estou decidido a fazer as malas
Sem cabides , nem mesmo lembranças de como era
E ao sentir o peso da mala, não sentirei mais a sensação de que minha vida está la
Eu a perdi, entre tantos quartos e rostos conhecidos
Sentado ao volante, chuva  e  escuridão 
Estou a observar , nada reconheço , paisagem conhecida e vazia
Onde estou?

Tenho mala, carro, falta-me direção
Estranha sensação
Que a falta de um quarto sem cor me faz.

Reflito se o quarto não teria cor, e com o costume do sempre fazer, não me permitiram mais perceber.

.
.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Ganha ao perder

 

Não tenho dias, tenho atividade

Sou o que não raciocina, faço

Faço para não raciocinar

É meu jeito, sou assim

Repito até me convencer

Não tenho tempo, há espaços

Vida traduzida em metas

Peças a se movimentar

Rainha e peões a cair

Bispo infalível

Perde ao ganhar

Ganha ao perder

Busca do impossível

Transcender ao tabuleiro

 

Todos veêm o que pareces ser, mas poucos realmente sentem o que és.

Maquiavel

 

Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.

Friedrich Nietzsche

 

A vida mais doce é não pensar em nada.

Friedrich Nietzsche

 

Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade.

Friedrich Nietzsche

 

Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.

Sigmund Freud

 

Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.

Sigmund Freud

 

Existe duas maneiras de ser feliz nesta vida, uma é fazer-se de idiota e a outra sê-lo."

sigmund Freud

 

.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sonho imortal

Imaginem a cena
Quase duas da manhã, assisti um filme bem interessante, bom passatempo
E quando as letras dos personagens começam a rolar na tela
Sinto a necessidade de estar aqui
Aqui estou …
Escolho a musica que combina com a tela branca
Vivo per lei  (Adrea Bcceli e Tina Arena), não, opto por “La lettre a Elise” – Beethoven
A mesa do escritório ainda com muitos papéis de um dia de trabalho, em pleno domingo, o celular numa quietude exemplar.
O som do piano , é tranqüilizante, deveria substituir os lexotans da vida, penetra na mente com suavidade, criando momentos de puro êxtase.
Não estou cansado ou acordado, estou a meio termo, como a minha vida.
Evitando se comprometer, seguindo como se não houvesse fim e nem tempo, enfim tolo de olhos fechados.
O toque das teclas no piano é sedoso, faz bem para a alma, queria eu ter sido, horrível essa frase, mas inevitável neste momento.
Sensação estranha não ter sido, e estar hoje aqui, escrevendo lamurias de quem não foi.
Poderia aprofundar nesse tema, e não haveria espaço para tantos não, agarrar-me-ei à possibilidade de ainda ter coragem de deletar muitos não.
Essa musica , me diz algo que transcende meu entendimento, não sei bem ao certo se é a delicadeza do toque ou a concordância das notas.
O sono vem com o peso nas pálpebras, e estarei amanhã de novo, sem os predicados necessários, serei o de sempre para todo sempre.
Lembrarei das notas, e talvez acorde, e descubra na profundeza do som a sutileza de viver.
Beethoven é imortalizado por melodias que nos fazem pensar, que o impossível e possível.
Boa noite ….

,