sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Realidade do Sonhar

 

Sem querer ser saudosista

Não tenho como evitar lembranças tão esquecidas, venham a transbordar em certos momentos

Certa conversa, esta noite , obrigou-me a resgatar passagens de vida , que há muito tempo estavam confortavelmente penduradas em cabides, no armário do quarto escuro

Sim, o barulho do ônibus , que levava a algum lugar descrito em rascunho de papel amassado

A carona que poderia reservar algum conforto,  não aconteceu, e sem alternativa estava ali, sentado, barulho do motor a ronronar  e meus medos adormecidos pela coragem repentina.

Ninguém sabia a onde estava ou a onde ia

Camisa coloria, cabelos compridos , calça boca de sino e a inseparável bolsa de couro , eram traje da ocasião, tênis tão antigos quanto o sonho desta viagem

Acho que nem era tão fã das bandas ou da musica, mas a reportagem do jornal , falava algo que seria único no Brasil, no interior de São Paulo, um Festival de Rock à lá Woodstock

Menino do interior , desço do ônibus, chuva fina caia, a vergonha não me permitia perguntar, segui àqueles que eu achava que eram iguais, já me permitia me achar assim, ensopado ando um bom pedaço, até a bilheteria, que se me lembro, eram madeiras mal formadas com ar de recepção.

Os poucos trocados que tinha quase na sua totalidade ali ficaram, entrei para o mundo que não conhecia, mas desejava, pessoas totalmente diferentes, não sabia o que fazer, mas ali permaneci.

A fome que sentia foi alimentada por meus olhares curiosos, nenhum detalhe permanecia intocado, as mulheres que atrevia admirar , eram sorridentes, decididas e de uma delicadeza extrema.

Em dado momento, alguém chegou e perguntou, ‘porque não entra na barraca está chovendo’, aquele sorriso sedoso convenceu-me.

Não era bem uma barraca, era um pano colorido enorme, que lembrava um circo aberto, só com a cobertura, amarelo e vermelho, e muitas pessoas ali, se aconchegando, a fogueira em brasas, bebida de mãos em mãos, baseados que não tinham dono.  Ela me disse , ‘qual seu nome’, e eu tremendo não de frio mas de receio que acordasse falei tão baixo , que a fez se aproximar com seus cabelos próximo à minha boca, repeti  meu nome, e ela ‘sou a Chris’, como se me conhecesse a vida toda, tal espontaneidade.

Estudante de jornalismo de cidade tão distante, língua ferina, opiniões politicas que me fizeram sentir como se Che Guevara fosse, em uma revolução nos EUA, e a favor do governo.

O dia amanhecia,  chuva grossa a cair

No palco sons de guitarra ecoavam no terreno vazio, poças d’água se formavam, e de repente uma avalanche de almas coloridas, brincavam  e tiravam a roupa , faziam amor, cantavam , na minha compreensão interiorana era a visão do preludio do fim do mundo.

Olhos encantados com a visão mais linda que já tinha assistido, pessoas livres de pudores e hipocrisias, sejam movidas por álcool, fumo , não importa, porque muitas ali estavam por se sentirem bem e livres.

Pingos em minha face, acordaram meus sentidos, era ela me chamando a atenção, e gritando ‘venha’ ….

Descreve-la nesse momento , acho que será impossível, estava ela nua e molhada, estendendo a mão com sorriso angelical, algo não coadunava , como pode, ela está nua e é angelical, ou meus olhos à época eram ainda inocentes, prefiro a primeira opção.

Estático é a palavra que melhor descreve meu movimento, não havia músculos que obedecessem meus olhos, e mesmo assim, a aproximação da visão foi inevitável , e seu toque novamente à realidade úmida me trouxe, tentei balbuciar algo, e minha roupa lá ficou.

Brinquei pela primeira vez na vida, ou , melhor dizendo a única , lama , risos, quedas, semeado por liberdade nunca experimentada, me fez renascer por alguns momentos.

A musica de Janis Joplin, ressoava, algo haver com Mercedes Benz, meu inglês era gutural, o dela era perfeito, corríamos loucos em sentir a chuva, sabe, acho que foram os dez minutos mais longos em nada ter ou ser, era somente a minha presença ali, com certo prazer de não haver expectativas nem sonhos. Era o ali e agora.

Todos , recolhidos à volta da fogueira que tinha sido alimentada , as chamas crepitavam, toalha no rosto, risos e roupas postas, o momento se aquietava, sem palavras nem ações, aquietava …

Alguém a beijou, me comprimentou  , e abraçados foram.

Não entendia o que acontecera ou não entendo, e o dia se foi.

Noite quente , shows aconteciam, eu e meu mundo nos reencontramos, eu e meus olhos, passeamos de mãos dadas, não havia mais toques só uma distância cruel, sentei-me em algum canto,  para só ficar, olhos fechados.

O ronronar do ônibus, a fome, cansaço, não conseguiam tirar o pequeno sorriso escondido, conseguira de alguma forma a realidade do sonhar.

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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Será que acontece …


Era três da manhã, a noite tinha sido vaga em todos os sentidos, só a musica estava presente, não sei ao certo, se foi descuido ou destino, quando repentinamente á minha frente surgiu alguém de roupa branca, sorriso que iluminava , freei bruscamente.
Á minha janela , ela apareceu, do nada, e dizia algo como ir a algum lugar, sem perceber estava ali ao meu lado, a conversa solta, como se fosse tudo normal, e talvez fosse.
Escutava e eu balbuciava algumas palavras e seguia ao destino que nem eu sabia , somente segui a intuição que ali era o caminho, e fomos noite adentro, a musica ainda presente.
A musica , ela, o carro, o mar, não conseguia mais perceber os limites da realidade e do sonho, minha racionalidade insistia , e nada acontecia.
Não é certo, onde estou a ir, quem é ela, quem sou eu, esqueci! , seguia o encanto das palavras , que vinham e iam com delicadeza estonteante, como se esperasse tal acontecimento.
A escuridão lá fora tomava corpo em contrapartida a luz ao meu lado resplandecia, por mais, que tentasse entender, nada entendia, só seguia.
Será que é assim que acontece, não pensamos e nem planejamos, o perfume deixava odor de saudade não acontecida.
Confuso, paro no lugar certo, sem saber ainda do futuro, e a porta abre e lá se vai, será que de novo deixei acontecer  o inevitável, ou era assim para ser,´ não sei.
O vento da noite de verão, fazia com que cabelos esvoaçassem e o perfume tomasse o espaço, a visão era completa não me deixava respirar, imóvel ali permaneci.
Minha vida se foi, e eu permaneci como sempre, imutável permaneci.
A lua, que traçava com luz as águas revoltas, me dizia , venha é por aqui ….

Hoje de manhã acordei


Hoje de manhã acordei

Hoje de manhã acordei
Os sentidos enlutados
O corpo cansado
A mente vazia

Hoje de manhã acordei
Sem saber o que serei
Ou, o que fazer.

Hoje de manhã acordei
E o dia era o mesmo
As horas passavam
E nada encontrei

Hoje de manhã acordei
Adormeci
Esperei
E nada aconteceu
Acordei...

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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Caminhada

Devo ser um dos maiores malandros no que se refere a exercícios, sou daqueles como um amigo sempre diz, “que pega o carro para andar na praia”.

 

Este assunto aeróbico, me fez lembrar dos tempos de criança, a caminhada esteve presente na minha vida, como se caminhada fosse.

 

Recordo-me  que a qualquer ameaça de chuva, estava lá fora eu, esperando a tempestade com seus raios a iluminar, a sensação de medo e prazer sempre presente.

 

O borbulhar da água fria no asfalto quente, eram sons extasiantes, e agora aqui, lembro-me que sempre quis ver uma enchente , frustrada como sempre, ‘coisas de guri’.

 

Em Curitiba, inesquecíveis caminhadas na madrugada adentro, os tons e silencio quase fantasmagórico, observava o movimento da noite, como se, nela só participasse como expectador, muitas vezes até o raiar do dia.

 

E enveredando no restante desta simplória e exaltada vida, vejo não com bons olhos, que muito caminhei, sem nunca chegar e para ser sincero nem paradinhas para um Chopp houveram, só caminhei a passos largos, como se tivesse a necessidade de chegar.

 

Vejo com olhos cansados, que por mais tenha caminhado , nada aprendi, sou um observador, com anotações mentais, cenas que não participei, sempre coadjuvante, aproveitando-me da glória do obscuro.

 

E para terminar minha caminhada, digo-lhes,  não me julgo, observo , nada mais.

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